Negros têm até 2,3 vezes mais risco de morrer por homicídio no Brasil, aponta estudo
23/01/2026
(Foto: Reprodução) Um estudo publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva revela que a população negra no Brasil tem probabilidade 49% maior de ser vítima de homicídio em comparação à população branca.
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Um estudo publicado na revista científica "Ciência & Saúde Coletiva" revelou que pessoas negras têm até 2,3 vezes mais risco de morrer por homicídio do que pessoas brancas no Brasil. A pesquisa, conduzida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), utilizou a escala de propensão, método estatístico que permite a comparação de indivíduos com as mesmas características de idade, sexo e local de moradia, isolando a cor da pele como fator de risco independente para a morte violenta.
“O estudo comparou dois grupos de pessoas e, ao controlar fatores como escolaridade, local de moradia e estado civil, buscou isolar a cor da pele como a única diferença entre eles, o que permite afirmar que a morte violenta está relacionada à cor da pele”, explica o médico Rildo Pinto, autor da pesquisa e formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).
Descobertas da pesquisa
As informações analisadas no estudo foram obtidas no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), disponível no Portal Brasileiro de Dados Abertos, com dados referentes ao ano de 2022. Já as informações populacionais — com os recortes por sexo, idade, cor e municípios — foram extraídas do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O estudo analisou diferenças regionais e raciais nos homicídios no Brasil a partir do uso de técnicas geoestatísticas e da escala de propensão. Na análise espacial, os pesquisadores utilizaram os conceitos de hot spots (áreas com concentração estatisticamente elevada de homicídios) e cold spots (regiões com taxas de violência significativamente menores) para identificar grupos de municípios com padrões semelhantes de ocorrência de mortes violentas no país.
Utilizando uma técnica chamada análise geoespacial, o estudo dividiu o país em áreas de risco
Autores do estudo
Os resultados apontam uma concentração mais intensa da violência na região Nordeste, enquanto municípios das regiões Sul e Sudeste apresentam, em geral, menores índices de homicídios.
De acordo com os dados de 2022 analisados, o perfil predominante das vítimas é formado por homens jovens, negros, solteiros e com baixa escolaridade. Nas áreas classificadas como de alta violência (hot spots), 9 em cada 10 pessoas mortas são pretas ou pardas.
Uma área localizada entre os estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte chamou a atenção dos pesquisadores por não apresentar dados estatísticos claros, apesar de estar cercada por municípios com altos índices de violência. Segundo Rildo Pinto, uma das hipóteses para essa lacuna é a subnotificação de óbitos, conhecida como homicídio oculto, que não foi incluída no estudo.
“Isso pode fazer com que a mortalidade pareça menor do que realmente é e precisa ser avaliado em pesquisas futuras. No nosso trabalho, a comparação entre regiões violentas (hot spots) e menos violentas (cold spots) foi usada como controle, e em ambas os negros morrem mais”, afirma.
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Impacto para políticas públicas
Para os autores, um dos desdobramentos esperados é que diferentes grupos sociais se apropriem dos resultados da pesquisa e exerçam pressão para que os dados se convertam em ações concretas.
“Do ponto de vista governamental, o ideal é que cada local aprenda com experiências que deram certo em outras regiões, crie seus próprios modelos e compartilhe o que funcionou, sempre pensando no benefício da população, e não apenas em interesses políticos”, ressalta Rildo.
Segundo ele, uma aplicação prática seria replicar a metodologia em nível local, analisando municípios, bairros e até ruas de forma científica, com a participação de diferentes atores sociais. “Reduzir a violência contra grupos específicos, especialmente os que mais sofrem, traz benefícios para toda a população”, afirma.
Além de mostrar que pessoas negras têm uma chance 49% maior de serem vítimas de homicídio em relação às brancas, o estudo também evidencia as desigualdades geográficas da violência no país. Para os autores, o acesso a esses dados é um passo fundamental para a transformação social.“A partir daí, o cidadão pode questionar os dados, inclusive o próprio estudo, e exercer seu poder de cidadania”, diz Rildo.
(*Estagiária, sob supervisão de Ardilhes Moreira)
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